domingo, 18 de junho de 2023

MOVIMENTO EXIGE PARTICIPAÇÃO NO MCMV * Pedro Carrano/Brasil de Fato PR

MOVIMENTO EXIGE PARTICIPAÇÃO NO MCMV

Nesta semana, no dia 13, o Senado aprovou a medida provisória que transforma o programa Minha Casa, Minha Vida em lei. Na atual proposta, 5% dos recursos da política habitacional serão usados para financiar a retomada de obras paradas. Além disso, pessoas em situação de rua, mulheres chefes de família e famílias com pessoas com deficiência, entre outros segmentos, devem ter prioridade.

A avaliação inicial de organizações sociais e especialistas na área é que os governos neoliberais desde 2016 congelaram os programas de moradia, e Bolsonaro simplesmente acabou com o programa, substituindo-o por um ineficiente Casa Verde e Amarela.

Já em comparação com o Minha Casa, Minha Vida 1 e 2, análises apontam que o programa atual terá maior preocupação com acesso das construções a equipamentos públicos. Na área urbana, a faixa 1 é destinada a famílias com renda mensal bruta de até R$ 2.640. A faixa 2 é para renda familiar até R$ 4,4 mil e a faixa 3 para até R$ 8 mil. As experiências anteriores, de fato, não conseguiram alcançar as cerca de 6 milhões de famílias no Brasil com urgência de moradia e a faixa de renda de 0 a 3 salários mínimos.


Mas ainda é necessária a ampliação dos projetos coordenados por organizações populares, e não apenas aqueles com construtoras do ramo. "É preciso ampliar a participação do Minha Casa, Minha Vida Entidades e do módulo Rural", afirma Evaniza Rodrigues, arquiteta e integrante da União Nacional por Moradia Popular (UNMP)

Moradia popular

Neste momento, a pergunta-chave é como se dará a construção de moradia popular. Áreas de ocupação recentes e movimentos populares conseguirão acessar o financiamento, conformar entidades para a construção dos projetos e, principalmente, ter a mediação do poder público para acesso a áreas?

Apenas em Curitiba e região existem ao menos 14 áreas de ocupações recentes, articuladas na campanha Despejo Zero, e cerca de 4,5 famílias. O módulo do programa Minha Casa, Minha Vida Entidades permite que cooperativas ou associações inscrevam e coordenem projetos para financiamento. Entre os critérios para acesso ao recurso está experiência na área de moradia popular para construções acima de 100 unidades.


Na opinião de Evaniza, o módulo Entidades é importante porque trabalha com a organização comunitária, renda, vida do bairro, além de ser produzida sem lucro. "Hoje existe no país uma quantidade de organizações populares que já mostraram possibilidade de vitória nesse processo, com gerenciamento da obra e depois organizar o pós ocupação", aponta.

Cogestão ou autogestão?

No módulo Entidades, as construções se dividem em cogestão e autogestão (veja abaixo). Organizações e especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato Paraná apontam o necessário enfoque na autogestão, para que o programa não se concentre apenas na execução por parte de grandes construtoras.

Margareth Uemura, coordenadora da articulação BR Cidades e diretora do Instituto Pólis, aponta que a autogestão é necessária em vista dos problemas de parcerias com a iniciativa privada. "Outra questão importante é destinar áreas públicas federais para atender às famílias mais vulneráveis do déficit, faixa 1, para que não estejam colocadas Parcerias Público-Privadas (PPPs), que de públicas não têm nada. O poder público tem a obrigação de atender as faixas mais necessitadas e as demandas populares", aponta.

Problema do acesso ao terreno e mediação do poder público

De acordo com os movimentos, a responsabilidade do poder público na mediação e busca de alternativas para as áreas de ocupação é fundamental. Há grande expectativa entre movimentos populares e novas áreas de ocupação, surgidas na crise social da pandemia. "Há que ter algum mecanismo de prefeitura, governo estadual e federal para regularizar a situação dessas áreas", afirma Uemura.


O apontamento de que imóveis abandonados, subutilizados ou que têm dívida de IPTU exigem medidas de desapropriação por parte do poder público. "O problema é o poder público se disponibilizar no sentido de adquirir esses imóveis. Há imóveis ocupados não são de propriedade pública, mas apresentam dívidas", completa.

Dificuldades

Um encontro realizado nos dias 9 e 10 de junho na cidade de Guarapuava (PR), convocado pela União Nacional por Moradia Popular (UNMP), apresentou experiências de construção de habitação popular em Londrina, Curitiba, Cornélio Procópio, Ponta Grossa, entre outras. Os participantes compuseram um panorama sobre os critérios para formação de entidades voltadas à obrigatória apresentação de projeto para as construções de unidades habitacionais.

Lideranças comunitárias reconhecem que, ao olhar para o programa nos períodos anteriores, é preciso participação maior das entidades sociais. "Já tivemos 17 unidades nossas habilitadas, mas apenas 3 conseguiram concluir a construção", reflete Maria das Graças Xavier, Coordenadora da União Nacional por Moradia Popular no Paraná.

O que é autogestão e cogestão

A autogestão é o uso exclusivo de meios próprios da entidade ou dos beneficiários para a gestão da produção das unidades habitacionais, conjugadas ou não com a contratação de profissionais ou empresas para execução parcial dos serviços. Pode lançar mão também de práticas de mutirão, por exemplo. Já a cogestão faz uso de empresa do ramo da construção civil para produção total das unidades habitacionais. Nesse regime, a entidade contrata empresa para execução total das obras e serviços por preço certo e total.

sábado, 17 de junho de 2023

MCMV X ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA * Movimento Pautas Populares - MPP

MCMV X ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA
O desespero do "mercado" vem à tona. Verdade. Esta é a lição que fica da iniciativa do "centrão lira" ao empurrar com a barriga a aprovação do Programa Minha Casa Minha Vida na Câmara Federal para o último segundo do último dia.

No Senado nem chegou a tempo de ser discutido, mas foi aprovado a toque de caixa também. Tudo isso torna mais convincente a atuação macomunada do "centrão lira com o centrão pacheco", só pra obrigar o governo a abrir a "caixa preta das propinas". Mas não alimentemos ilusões, pois o presidente eleito já provou em gestões anteriores a sua disposição em se aliar ao que houver de pior na política brasileira para garantir seus interesses.

Mas por cima disso tudo vê-se o brilho do glacê competir com a CEF e o BB e garantir ao setor privado uma parte do mercado, tanto pra bancos como para indústria imobiliária. E esse setor privado inclui os especuladores bancários e imobiliários. Eles não gostam de pobres e sabemos disso, mas querem agarrar o que houver de melhor dentro da classe média na aquisição da casa própria. Se o nome do programa é MCMV, não importa. Importa o lucro às custas do governo como avalista.

PROVAS DA ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA

MINHA CASA
MINHA VIDA

Há muito tempo campeia a especulação nesse setor. Ninguém se esquece das mobilizações dos mutuários, nos anos anteriores à chegada do PT ao governo nacional, reagindo contra as altas exorbitantes das prestações de seus imóveis devido às altas taxas de inflação. Era uma verdadeira carnificina, pois muitos acordavam com oficiais de justiça em suas portas exigindo sua saída porque seu apartamento foi leiloado e o novo proprietário estava chegando.

Além dessas formas já conhecidas, hoje temos várias disfarçadas de "novidade". Hoje, todo sindicato tem plano habitacional. Hoje, todo sindicato tem fundo de pensão, ou participa de algum. Inclusive igrejas de várias denominações religiosas, criam "associações habitacionais" e arrebanham o  dinheirinho suado dos fiéis. Tudo sob o manto encantador de "cuidar do próximo".

Bom, esses são exemplos de formas de explorar a necessidade do sem-teto realizadas por entidades da sociedade civil, muitas sem fins lucrativos. Mas existem mais. Por exemplo, as prefeituras. Quase todas possuem "programas habitacionais". Quase todos os governos estaduais, também, montam esses esquemas. Sem dúvida, todos aliados à indústria imobiliária e aos bancos privados.

Nesse arranjo todo, se destaca o ASSALTO ao bolso do pobre coitado que se candidata a comprar sua casa por esses "empreendimentos", pois a maioria "some" no meio da estrada, deixando a pessoa endividada e sem moradia. 

Paralelo a isso, temos programas habitacionais voltados pra setores sociais diversos, como os idosos. Há um monte de programas habitacionais por aí se propondo a construir "vilas dos idosos, condomínios dos idosos", sem atentar para o que isso significa em termos de isolamento dos idosos tanto da sociedade como de sua família. Ou seja, pura forma de matá-los mais rápido.

domingo, 11 de junho de 2023

QUEM É A PESSOA IDOSA * Katia Machado - EPSJV/Fiocruz

QUEM É A PESSOA IDOSA
Katia Machado - EPSJV/Fiocruz

Decisão da Justiça fluminense, que considerou idoso só quem tem 65 anos ou mais, coloca em xeque os direitos da população que mais cresce por aqui e no mundo. Professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz avalia que, neste caso, sobressaem os interesses econômicos em detrimento das demandas da pessoa idosa
O Brasil tem a quinta maior população idosa do mundo, com mais de 28 milhões de pessoas com 60 anos ou mais

Em setembro, o Tribunal de Justiça (TJ) do Rio de Janeiro suspendeu a gratuidade em transporte público, em ingressos para eventos esportivos e descontos de 50% em shows e peças teatrais para quem completou 60 anos. Esses benefícios haviam sido garantidos em 2018 pela lei estadual 7.916. E foram contestados pelo governo Wilson Witzel, que pediu a revogação da legislação sob o entendimento de que a concessão de gratuidade em serviços públicos para maiores de 60 anos prejudicaria o equilíbrio financeiro do estado. Dessa forma, o critério para se encaixar na chamada ‘terceira idade’ volta a ser os 65 anos. Mas afinal, quem é a pessoa idosa? Aquela que tem 60 ou 65 anos?

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é todo indivíduo com 60 anos ou mais. O mesmo entendimento está presente na Política Nacional do Idoso (instituída pela lei federal 8.842), de 1994, e no Estatuto do Idoso (lei 10.741), de 2003. A primeira tem como objetivo assegurar os direitos sociais do idoso, entre eles à saúde, ao trabalho, à assistência social, à educação, à cultura, ao esporte, à habitação e aos meios de transportes, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade. A segunda vem regular todos esses direitos, concedendo a quem tem 60 anos ou mais, por exemplo, atendimento preferencial em estabelecimentos públicos e privados e prioridade na formulação e na execução de políticas sociais públicas específicas.

O professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Daniel Groisman, que também coordena o curso de qualificação profissional no Cuidado à Pessoa Idosa, explica que os limites etários fazem parte de “convenções sociais”, definindo “que grupos sociais poderão ter acesso a determinados direitos ou políticas sociais”. Mas essas convenções, afirma, estão em permanente disputa. “O próprio Estatuto do Idoso, ainda que entenda como pessoa idosa aquela que tem 60 anos ou mais só garante a gratuidade em transportes públicos a quem tem 65 anos. O Código Penal, por sua vez, quando menciona determinados benefícios de progressão de penas, fala em 70 anos. E até mesmo dentro do próprio Estatuto do Idoso já criaram uma prioridade dentro da prioridade. Ou seja, as pessoas com 80 anos ou mais passaram a ser priorizadas em relação às que têm 60 anos”, elenca, referindo-se no último caso à prioridade especial assegurada aos maiores de 80 anos que passou a valer em 2017, por meio da lei 13.466.

As alterações nos marcadores etários – e as diferenças que existem dentro das legislações –, segundo o professor da EPSJV/Fiocruz, acompanham os interesses econômicos de um país. “Há sempre uma intenção de se deslocar para frente a idade que define uma pessoa enquanto idosa, por conta das repercussões econômicas e financeiras, especialmente quando se trata de gratuidades ou outros direitos, como é o caso também das aposentadorias. Afinal, a população idosa é a que mais cresce no mundo”, sublinha.

O futuro será de pessoas idosas

Desde 2016, o Brasil tem a quinta maior população idosa do mundo, com mais de 28 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Isso representa 13% da população do país, que já ultrapassa a marca dos 210 milhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O cenário segue uma tendência mundial: segundo a OMS, os idosos poderão somar dois bilhões até 2050, correspondendo a um quinto da população mundial, atualmente estimada em 7,7 bilhões.

Uma projeção da população atualizada pelo IBGE em 2018 prevê que o número de idosos vai ultrapassar o de jovens no Brasil em 2031. Daqui a 12 anos, haverá 42,3 milhões de jovens (de zero a 14 anos) e 43,3 milhões de idosos (pessoas com 60 anos ou mais). Pela primeira vez, o Índice de Envelhecimento – cálculo da razão entre o número de pessoas idosas sobre os jovens – será maior do que cem. Isso significa dizer que, em 2031, haverá 102,3 idosos para cada cem jovens.

As projeções do IBGE indicam que esta diferença aumentará em 2055, quando os jovens somarão 34,8 milhões e os idosos, 70,3 milhões. Nesse momento, o país terá um Índice de Envelhecimento de 202 idosos para cada cem jovens. Para efeito de comparação, até 2010 havia 43,4 idosos para cada cem jovens. Ou seja, haverá mais do dobro de idosos em relação aos jovens, o que implicará, na avaliação de Groisman, maior atenção do Estado brasileiro quanto às políticas públicas voltadas para essa população. “Os idosos, por estarem no limite da capacidade produtiva, muitas vezes são vistos como pessoas dispensáveis. Mas negligenciá-los significa um retrocesso civilizatório enorme”, conclui.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

MOBILIZAÇÃO POPULAR PARA MUDAR * VANGUARDA 26 OCAC-RJ

MOBILIZAÇÃO POPULAR PARA MUDAR
VANGUARDA 26 OCAC RJ

Desde o período Color, o Estado brasileiro tem vendido empresas estatais. A onda de privatizações não foi apenas no governo federal. Governos estaduais e prefeituras se desfizeram de empresas e autarquias a granel. O resultado direto do desfazimento da intervenção direta estatal na economia foi desindustrialização e atraso tecnológico.

O governo Fernando Henrique vendeu a Vale do Rio Doce, o Sistema Telebrás e boa parte do setor elétrico. Collor e Itamar Franco já haviam desfeito o setor siderúrgico – incluindo as emblemáticas CSN e Usiminas , a Petroquisa e a Embraer. O Banco Central, na esteira do Plano Real, induziu a venda e o fechamento de quase todos os bancos estaduais. Na década de 90, boa parte das rodovias federais – a começar pela Via Dutra e Ponte Rio-Niterói – foram privatizadas. O mesmo ocorreu com a malha viária do estado de São Paulo.

O governo Lula paralisou as privatizações, apesar de de não ter revertido nenhuma. O Ministério de Minas e Energia consolidou o modelo de privatização do setor elétrico de FHC, com privilégios para as distribuidores privatizadas. Dilma retomou as privatizações, iniciando o processo de concessões de aeroportos. Temer e Bolsonaro/Guedes/Tarcísio seguiram adiante vendendo aeroportos à preço vil. Temer/Pedro Parente e Bolsonaro/Guedes desossaram a Petrobras, beneficiando os importadores de derivados e fazendo o povo pagar caro por gás de cozinha, diesel e gasolina.

A cereja do bolo foi a doação da Eletrobrás para o mesmo grupo que quebrou as Lojas Americanas. A maior empresa elétrica da América Latina passou de lucrativa a deficitária no momento em que foi privatizada.

Três décadas de privatizações já é possível fazer um balanço. A Vale privatizada produziu alguns dos piores desastres ambientais da história do Brasil, ceifando centenas de vidas e destruindo a vida de dezenas de cidades. A mineradora hora privada faz de tudo para fugir da cobrança de impostos, vende minério bruto, desperdiça recursos minerais diversos, pois seu foco é minério de ferro e agrega valor próximo de zero na cadeia industrial do Brasil. A privatização do Sistema Telebrás faz com que os brasileiros paguem as tarifas de voz e dados as mais caras do mundo, importa todos os seus insumos e bloqueia o desenvolvimento da internet em nosso país. A privatização das rodovias, em que pese a constância da manutenção das pis- tas de rolagem, resultou em cobrança de pedá- gios absurdos, encarecendo a cadeia logística.

Alguns setores privatizados necessitam urgentemente serem reestatizados. O caso dos aeroportos é emblemático. As operadoras dos aeroportos de Viracopos, em Campinas, e do Galeão, no Rio de Janeiro, quem devolver as con- cessões. Descobriram que aeroportos isolados não são rentáveis em si. Dependem de outros aeroportos, rentáveis ou não, para funcionar. A Light, não por acaso de posse dos mesmos contro- ladores das Lojas Americanas, entrou em concor- data, tentando culpar o povo pobre pela sua ruína.

É fartamente documentado que as pri- vatizações foram verdadeiras doações ao cap- ital privado e ao capital estrangeiro, esse mui- tas vezes estatal. Os argumentos dos defensores das privatizações foram derrubados pela práti- ca, um a um. Na maioria dos setores os inves- timentos são insuficientes, ou mesmo inexis- tentes. Os contratos protegem os concessionários e prejudicam os usuários e o governo. As tais agências reguladoras, com “mandato” e “sem injunções políticas”, foram capturadas pelos regulados e são um pesadelo para os usuários.

Por todo o exposto, o setor privado não se mostrou mais eficiente que o setor público. Ao contrário, os serviços são caros e com qualidade a dever. Não houve melhoria das finanças públicas. Não houve redução da dívida pública, pois o arrecadado com as vendas foi insignificante frente às necessidades de financiamento do Estado. Ao contrário, as empresas privatizadas se tornaram uma fonte de pressão sobre o orçamento público, pois muitos setores não resistem sem subsídios governamentais. O caso dos setor metroferroviário urbano em vários estados da federação é exemplar.

O monopólio privado substituiu o monopólio público. Para que o Brasil retome seu desenvolvimento econômico e social, é necessário que se revertam as privatizações, a começar pela Eletrobrás e pelos ativos da Petrobras. Argumentos jurídicos não faltam. É preciso vontade política. E muita mobilização popular.

terça-feira, 30 de maio de 2023

OS DIREITOS HUMANOS À ÁGUA E AO SANEAMENTO * Léo Heller/RADIS

OS DIREITOS HUMANOS À ÁGUA
E AO SANEAMENTO

QUANTO VALE A ENFERMAGEM * Bruno Dominguez/RADIS

QUANTO VALE A ENFERMAGEM

A sanção de uma lei instituindo piso salarial nacional para a Enfermagem, em 4 de agosto, parecia representar um novo patamar de dignidade para 2,7 milhões de profissionais da categoria. A lei 14.434/22 tinha efeitos imediatos: salário mínimo inicial de R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos e R$ 2.375 para auxiliares e parteiras. Mas uma ação da Confederação Nacional de Saúde, Hospitais e Estabelecimentos e Serviços (CNSaúde), acatada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), levou à suspensão da medida. Em 4 de setembro, o ministro Luís Roberto Barroso deu 60 dias para o Legislativo apontar fontes de custeio, o que não aconteceu até o fechamento desta edição. O que deveria ser um momento de celebração se transformou em ameaça de demissão em massa, em um imbróglio que revela quão (des)valorizada é a maior força de trabalho da saúde no Brasil.

Abaixo do mínimo

“A política de remuneração dos profissionais de Enfermagem no Brasil está em um patamar muito aquém do ideal, dado o protagonismo que a categoria exerce no andamento dos bons serviços de saúde e as competências que possui”, avalia a presidente do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), Betânia Santos.

A pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada em 2016 pelo Cofen em parceria com a Fiocruz, identificou que a maior parte da categoria tinha renda mensal de até R$ 3 mil (62,5% das equipes do setor público, 68,2% do setor privado e 70,1% do setor filantrópico). Mas 2.344 profissionais chegavam a receber menos de R$ 680, e outros 7.971 recebiam entre R$ 680 e R$ 1 mil. Salários iguais ou inferiores a R$ 1 mil foram detectados em todos os setores — eram 1,9% no público, 1,7% no filantrópico, 4,6% no privado e 15,2% no ensino. “Estes valores revelam que uma parcela de enfermeiros, técnicos e auxiliares brasileiros se encontram em clara situação de subemprego”, conclui Betânia.

O enfermeiro Dayvison Amaral não tem dúvidas ao afirmar que nunca se sentiu valorizado ao ver os números impressos no seu contracheque. “Ao contrário, sempre me senti péssimo”, conta à reportagem. Ser profissional da Enfermagem um dia foi sonho. Mas a alegria pela realização se perdeu ao longo de anos de uma rotina exaustiva com pouco reconhecimento.

“Desejei muito na minha época de vestibular ter um trabalho que estivesse ligado à saúde, gostava do cuidado, do contato com a vida humana”, lembra. Filho de mãe solo cabeleireira, precisou de esforço redobrado para terminar sua graduação na cidade de Arcoverde, no interior de Pernambuco. Assim que se formou, em 2013, pegou seu diploma, botou debaixo do braço e foi atrás de um emprego. Logo estava atuando no bloco cirúrgico de uma escola de Oftalmologia.

“Minhas amigas de profissão dizem que sou um enfermeiro muito coringa, porque trabalhei em Centro de Atenção Psicossocial, hospital de campanha, hospital público regional de grande porte, sala de vacinação e com sistema de informação da saúde indígena”, lista. Logo cedo aprendeu que, para melhorar sua renda, teria que acumular vínculos. “A norma na Enfermagem é ter mais de um vínculo para receber um valor mais justo ao final do mês”, observa Dayvison. “Não é trabalhar dobrado, é trabalhar triplicado, de manhã, de tarde e de noite”.

A rotina de sair de um plantão de 24 horas, passar em casa apenas para tomar banho e ir direto para outro emprego sem descansar acabou tendo um custo pessoal que Dayvison não pôde continuar a arcar. “Desenvolvi questões de saúde mental e física decorrentes de anos de desvalorização da minha profissão, que me levava a pegar um plantão atrás do outro, não fazer exercício, não me alimentar bem, não dormir bem”, relata ele, que mesmo com excesso de trabalho continuou buscando se qualificar — cursou especialização em Saúde Pública e mestrado em Educação Profissional.

A atuação na linha de frente de combate à covid aumentou ainda mais essa carga, e então foi impossível não parar. “Estava exausto e optei por pedir demissão para cuidar de mim, mas muitos colegas não podem fazer o mesmo”, ressalta Dayvison, que destaca que a Enfermagem é cuidado mas também é técnica. “É muito triste que uma categoria receba um valor medíocre para fazer um trabalho tão importante, gigante, que tem impacto sobre a vida e a morte”.

Betânia também lamenta que enfermeiros, técnicos e auxiliares ainda hoje trabalhem em múltiplas jornadas, mal remunerados e sofrendo com a sobrecarga e o esgotamento físico e mental.

20 anos de luta

O Piso da Enfermagem é uma luta encampada pela categoria há mais de 20 anos. Ao longo de todo esse tempo, diversos projetos foram propostos no Congresso Nacional: PL 459/2015, 2982/2019, 1876/2019, 1268/2019, 10553/2018, 9961/2018, 1823/2015, 1477/2015, 729/2015, 597/2015 e 2297/2020. Nenhum chegou a ser votado. “Esse histórico de mais de duas décadas de mobilizações e articulações mostra a persistência da Enfermagem”, diz a presidente do Cofen à Radis.

O Projeto de Lei (PL) 2.564/2020, apresentado pelo senador Fabiano Contarato (PT-ES) em 12 de maio de 2020, escapou desse destino e foi aprovado na Câmara e no Senado com ampla maioria — oposição somente do partido Novo. O Congresso aprovou também a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 11/22, de autoria da senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), para permitir a criação do piso via lei federal. Promulgada em 14 de julho, a PEC buscava evitar questionamentos na Justiça sob o argumento de “vício de iniciativa”, ou seja, de que qualquer aumento da remuneração de servidores públicos só poderia ser proposto pelo Executivo.

Linha de frente

Para Betânia, pesou para o voto dos congressistas o papel fundamental da categoria na pandemia de covid-19: “Pela primeira vez, por meio da mídia, estávamos todos os dias na casa de milhões de famílias brasileiras. A sociedade passou a acompanhar mais de perto a nossa árdua rotina, entendendo que era imprescindível valorizar a Enfermagem”. Ela lembra que, nesse período, foram esses trabalhadores que cuidaram de 34 milhões de pacientes infectados pela covid-19, aplicaram 519 milhões de doses de vacinas contra a doença e deram conforto para 680 mil vítimas e seus familiares.

Segundo pesquisa encomendada ao Lagom Data pela Internacional de Serviços Públicos (PSI), federação que representa mais de 700 sindicatos em 154 países, dos cerca de 4.500 trabalhadores da saúde que morreram em decorrência da covid no Brasil nos primeiros dois anos de pandemia, 70% eram auxiliares e técnicos de enfermagem, 25%, enfermeiros, e 5%, médicos.

A presidente do Cofen ressalta que “a Enfermagem está na linha de frente trabalhando para cuidar das pessoas, tratar doenças, reduzir mortes e promover a saúde” desde Anna Nery, considerada pioneira da Enfermagem no Brasil. Em 1865, aos 29 anos, ela se voluntariou a cuidar de feridos durante a Guerra do Paraguai (1864 a 1870). “Digne-se Vossa Excelência de acolher benigno este meu espontâneo oferecimento, ditado tão somente pela voz do coração”, escreveu em carta ao então presidente da província da Bahia, Manuel Pinto de Sousa Dantas.

Historicamente, observa a presidente da Federação Nacional dos Enfermeiros (FNE), Shirley Díaz Morales, as pessoas associam a Enfermagem a uma atividade exercida por sacerdócio, com alguém que trabalha por amor, e não por salários. Mas a também conselheira nacional de saúde aponta ser preciso entender que mesmo “atividades que demandam amorosidade” são realizadas por “profissionais que vendem sua prestação de serviço”.

“Somos a força motriz do SUS e estamos ao lado da sociedade prestando assistência nos locais mais longínquos do Brasil e em todos os momentos, desde o nascimento até a morte. Somos cuidado e ciência trabalhando a serviço da vida. Nosso valor é inestimável, pois sem Enfermagem não há saúde. Agradecemos as palmas e as homenagens, mas precisamos urgentemente que todo o protagonismo da categoria seja traduzido em valorização real”, acrescenta Betânia.

O outro lado

A sanção do piso veio em 4 de agosto, último dia do prazo. Na assinatura de Jair Bolsonaro (PL), houve veto ao dispositivo que estabelecia reajuste anual automático dos salários pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), o que garantiria aumento real do poder de compra.

Quatro dias após a sanção, a Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), entidade que reúne 90 sindicatos que representam hospitais, clínicas e empresas privadas do setor, ingressou no STF com a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.222/22 para suspender a Lei 14.434/22. O texto pintou um cenário devastador, com “efeitos práticos adversos” como precarização dos serviços de saúde (diminuição do quadro pessoal e “juniorização” dos atendimentos), fechamento de hospitais (sobretudo os sem fins lucrativos e aqueles localizados em regiões menos favorecidas do país), diminuição do número de leitos à disposição da população, comprometimento da universalização da saúde no Brasil e até descontinuação de tratamentos essenciais (exemplo das diálises).

A confederação afirmou que as disparidades salariais nas carreiras da saúde são uma “suposição” e argumentou que o PL foi aprovado em tempo exíguo, sem amplitude de amadurecimento legislativo e com “simulacro” de análise de impacto. A autora da ação calculou a possibilidade de demissão de 80 mil profissionais da Enfermagem e fechamento de 20 mil leitos.

O impacto orçamentário do piso foi considerado no processo de tramitação, conforme demonstra relatório do grupo de trabalho especial que analisou a matéria na Câmara. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o impacto adicional para todos os setores (público, privado e instituições filantrópicas) seria de R$ 958,3 milhões mensais ou R$ 15,8 bilhões anuais. “Em linhas gerais, ficou demonstrado que o investimento anual para erradicar os salários miseráveis da categoria representa somente 2,7% do PIB da Saúde, 4% do orçamento do SUS, 2% de acréscimo na massa salarial dos contratantes e 4,8% do faturamento dos planos de saúde em 2020”, indica Betânia.

“Os argumentos da CNSaúde não têm amparo e já foram extensamente refutados”, comenta Shirley. Ela afirma ser enganosa a tese de que o Piso da Enfermagem vai levar ao fechamento de leitos e considera maldosa a ameaça de uma onda de demissões, argumentando que o mercado da saúde já contrata o número mínimo de profissionais e não pode prescindir de nenhum de seus quadros. “A verdade é que nenhum hospital será fechado por este motivo. Muito pelo contrário. Com remuneração digna, o ambiente da saúde ficará mais saudável, terá justiça social e dará reconhecimento àqueles que fazem o sistema verdadeiramente funcionar”, avalia.

Betânia acrescenta ao debate os “lucros estratosféricos” de donos de hospitais e planos de saúde: “Entre os 315 bilionários brasileiros, nove atuam no ramo e oito ficaram multibilionários em plena crise de saúde pública, segundo levantamento da revista Forbes”. Diante desses números, diz ela, não é justo que técnicos de enfermagem recebam R$ 900 por 176 horas de trabalho mensal e que enfermeiros — profissionais de nível superior e que exercem funções de responsabilidade extrema — recebam R$ 1.200.

“Ao contrário daqueles que ganham com a exploração da força de trabalho da Enfermagem, a sociedade é majoritariamente favorável à nossa valorização, pois entende que é justo e necessário erradicar os salários miseráveis que são pagos a quem exerce a ciência do cuidado”, diz.

Fontes de financiamento

A decisão liminar do ministro Luís Roberto Barroso que sustou os efeitos da Lei 4.434/22, em 4 de setembro, foi aprovada pelo plenário do STF em 16 de setembro, por 7 votos a 4. Os ministros Ricardo Lewandowski, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Luiz Fux votaram com Barroso, pela suspensão da aplicação do piso por 60 dias; André Mendonça, Nunes Marques, Edson Fachin e Rosa Weber divergiram.

Desde então, o Congresso corre para indicar possíveis fontes de custeio para a medida. Até o fechamento desta edição, faltando 20 dias para o recesso legislativo, ainda não havia definição, o que empurrava a implementação do piso para 2023.

O Projeto de Lei Complementar (PLP) 44/2022, que autoriza estados e municípios a utilizarem recursos ociosos dos fundos para o combate à pandemia de covid-19 e represados nos fundos regionais de saúde e de assistência social, foi aprovado no Senado, em 4 de outubro, e na Câmara, em 1º de novembro. A tramitação segue em regime de urgência.

O PLP 07/2022, que remaneja R$ 2 bilhões dos fundos de saúde e de assistência social de estados, Distrito Federal e municípios para entidades privadas filantrópicas sem fins lucrativos conveniadas ao SUS, as Santas Casas, para pagar o piso no exercício de 2023 foi aprovado na Câmara, em 11 de outubro, e seguiu para o Senado. Estão em discussão também: desoneração da folha de pagamentos do setor, aumento dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e destinação de royalties do petróleo e de impostos de jogos de apostas.

Outras demandas

Além da implementação do piso, as representantes da categoria afirmam que há diversas demandas históricas pendentes de aprovação. Um exemplo é o PL 2295/2000, que trata da regulamentação da jornada de trabalho de 30 horas semanais, aprovado no Senado e que aguarda há anos votação na Câmara dos Deputados. Outros projetos são descanso digno, a aposentadoria especial, o adequado dimensionamento e a formação continuada dos profissionais.

“As condições de vida e trabalho da Enfermagem brasileira serão melhoradas quando tivermos nossas demandas aprovadas e regulamentadas em leis. A dignidade profissional da Enfermagem está diretamente atrelada a uma carga horária justa, ao direito ao descanso digno e ao correto dimensionamento das equipes nas instituições de saúde”, conclui Betânia.

FONTE

sábado, 27 de maio de 2023

TARCÍSIO QUEIMA PATRIMÔNIO PÚBLICO DE SÃO PAULO * Movimento Pautas Populares/MPP

TARCÍSIO QUEIMA PATRIMÔNIO PÚBLICO DE SÃO PAULO
TEXTO: FSP
Tarcísio acelera venda de terras em SP – Sob protestos de movimentos sociais e partidos da oposição, o governo paulista de Tarcísio de Freitas (Republicanos) acelerou o processo de regularização de terras devolutas, com desconto de até 90% para os ocupantes.
As informações são de reportagem de Artur Rodrigues no jornal Folha de S. Paulo.

O governo justifica a ação com base em lei, que é questionada por PT e MST. A legislação foi aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em 2022 e sancionada pela gestão de Rodrigo Garcia (PSDB).

No entanto, a gestão de Tarcísio, eleito com apoio do agro, passou a colocar em prática os processos. As terras devolutas são áreas públicas ocupadas irregularmente que nunca tiveram uma destinação definida pelo poder público e que não tiveram um dono particular.

O governo, então, inicia uma ação de discriminação desses terrenos, dando preferência a quem os ocupa atualmente. O órgão responsável é a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), que já considerou aptos dez processos de regularização com base na lei.

Os imóveis foram avaliados em R$ 64 milhões. O total dos descontos previstos, porém, soma R$ 50 milhões —proprietários teriam que pagar só R$ 14 milhões.

Os terrenos somam 3.900 hectares, o equivalente a 25 áreas do parque Ibirapuera. Há ainda 132 processos que não chegaram nesse estágio.

ADI no STF

O PT entrou com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF) para barrar a lei. Até o momento, há pareceres favoráveis da PGR (Procuradoria-Geral da República) e da AGU (Advocacia-Geral da União).

Um vídeo anexado no processo mostra o diretor-executivo do Itesp, Guilherme Piai, orientando agilização de processos antes que a lei caia.

Guilherme é suplente de deputado federal pelo Republicanos e foi cabo eleitoral de Tarcísio e Bolsonaro no Pontal do Paranapanema, região oeste do estado.

“Agora está acontecendo uma questão política, que também foge da alçada do Itesp, que essa lei tem grandes chances de cair”, disse na gravação, citando que é necessário atuar no processo “enquanto a lei está vigente”.

Em resposta, o Itesp afirmou que o diretor sugere no vídeo que – enquanto a lei possibilitar – seja realizada a instrução processual para os acordos e “enfim, a retomada da segurança jurídica, da paz e do desenvolvimento”.

Após a atuação do Itesp, os acordos são enviados à Secretaria de Agricultura para manifestação e a decisão final será da Procuradoria-Geral do Estado.

A fundação argumenta que, em vez de perder dinheiro, irá poupar R$ 40 milhões apenas com oito desses imóveis.

“Mais adequado do que se apontar o valor de desconto dado pelo estado a estes particulares, é apontar o valor que o estado deixará de gastar com a continuidade do litígio e a necessidade de pagamento das indenizações por benfeitorias, bem como o quanto arrecadará para investimentos em políticas sociais”, diz o Itesp, em nota.

Segundo o órgão, há casos de propriedades aptas a acordo que ainda não foram declaradas devolutas.

A fundação afirma que só no Pontal do Paranapanema, 84 ações discriminam 1,2 milhão de hectares, das quais 29 foram julgadas improcedentes.

“Portanto não há certeza de sucesso no ingresso de ações judiciais discriminatórias e o acordo para regularização evita o risco processual”, diz o Itesp.

“A lei tem que ser derrubada porque é um escândalo o que a gente está assistindo com a entrega de terras públicas com preços módicos. Terras públicas que poderiam ser usadas para a reforma agrária, para produção do pequeno agricultor, estão sendo entregues a grandes proprietários por preço de banana”, diz o líder do PT na Alesp, Paulo Fiorilo,

O MST também faz forte oposição à legislação, apelidada como “lei da grilagem” e vista como um obstáculo a novos assentamentos no estado.

Leia a reportagem completa publicada pela Folha de S. Paulo clicando aqui.
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